*Paulo Angeli
Um destino turístico não é feito apenas de paisagens, atrativos e gastronomia. Sua identidade também está nas histórias, nos conhecimentos e nas tradições de quem vive no território. O artesanato traduz parte dessa riqueza em peças que carregam referências culturais, geram oportunidades de renda e aproximam visitantes das comunidades.
Essa relação também envolve reconhecer as diferenças entre artesanato e trabalho manual, atividades que compartilham técnicas e habilidades, mas podem apresentar características distintas.
Artesanato e trabalho manual não são a mesma coisa. O trabalho manual reúne atividades nas quais as mãos participam diretamente da produção de objetos, como montagem, costura, pintura, decoração e personalização. O artesanato, por sua vez, também envolve o fazer manual, mas pode reunir características como domínio de técnicas, criação autoral, transmissão de saberes e referências culturais ligadas a um território.
Essas características não estabelecem uma fronteira absoluta entre as duas atividades. Uma peça artesanal não precisa ser tradicional: novas técnicas, materiais e linguagens podem renovar a produção. Da mesma forma, nem todo produto feito à mão está necessariamente ligado a uma tradição cultural.
Tanto o artesanato quanto o trabalho manual possuem valor econômico e criativo. Reconhecer suas características, respeitar a autoria e comunicar com clareza o que está sendo oferecido são passos importantes para valorizar quem produz.
Quando o artesanato encontra o turismo
Realizado em Foz do Iguaçu desde 2006, o Festival Internacional de Turismo Cataratas (FITCataratas) reúne diferentes segmentos da cadeia turística e cria oportunidades de encontro entre destinos, empresas, instituições e profissionais do setor. Nesse contexto, a produção artesanal pode ampliar a conexão entre a oferta turística e a identidade cultural dos territórios.
Em 2026, uma iniciativa do IDESTUR associada ao Festival das Cataratas previu a seleção de até 15 artesãos do Brasil, do Paraguai e da Argentina, considerando critérios como autoria, originalidade, qualidade técnica e identidade cultural trinacional. A proposta destacou a diversidade da região de fronteira e a possibilidade de aproximar produtores de um público ligado ao turismo.
Iniciativas como essa demonstram o potencial dos eventos turísticos para dar visibilidade à produção artesanal e estimular novas conexões comerciais. Ao conhecer esses produtos, profissionais do setor podem identificar oportunidades de parceria e incorporar referências culturais à oferta de seus destinos. Para os artesãos, essa aproximação pode representar acesso a novos públicos e mercados.
Em Foz do Iguaçu e na região trinacional, essa relação ganha significado adicional. A produção artesanal pode expressar a diversidade de um território marcado pelo encontro entre diferentes povos, histórias e tradições. Valorizar essas criações ajuda a ampliar a percepção do destino para além dos atrativos mais conhecidos e evidencia as pessoas que também fazem parte de sua identidade.
Turismo de base comunitária: valorizar quem produz
A relação entre artesanato e turismo também se conecta ao turismo de base comunitária, modelo que busca ampliar a participação das comunidades na construção das experiências turísticas e na distribuição dos benefícios econômicos gerados pela atividade.
Oficinas, visitas a ateliês e vivências conduzidas pelos próprios produtores permitem que os visitantes conheçam as técnicas, os materiais e as histórias por trás de cada criação. A experiência deixa de se limitar à compra de uma lembrança e passa a envolver o contato com as pessoas e os conhecimentos que fazem parte da identidade local.
Para que essa relação gere benefícios duradouros, é fundamental respeitar a autoria, reconhecer os conhecimentos tradicionais e assegurar condições justas de participação e remuneração. A valorização cultural precisa se traduzir em oportunidades concretas para quem produz, sem reduzir tradições e saberes a simples argumentos de venda.
Como espaço de encontro entre diferentes atores do turismo, o FITCataratas pode contribuir para aproximar produtores e profissionais do setor e reforçar a importância da cultura na construção de destinos mais diversos e conectados às suas comunidades. O desenvolvimento turístico também depende de reconhecer as pessoas que preservam conhecimentos, criam produtos e compartilham a identidade de seus territórios.
Afinal, um destino se torna mais interessante quando consegue compartilhar não apenas suas paisagens, mas também suas histórias. E, quando o turismo abre espaço para quem produz, uma simples lembrança pode se transformar em uma conexão duradoura entre o visitante, a cultura e o território.
*Paulo Angeli é idealizador e CEO do Festival Internacional de Turismo Cataratas (FITCataratas).